LEI SECA

Lei seca: intenção de primeiro mundo, resultado de quinto mundo – o quinto dos infernos…

Sua recepção ao entrar não poderia ser mais “objetiva”…

– E aí, cara… Qual o bagulho…?

– Ahn… Desculpe…?.

– Êêê… Qualé…?

– …

– Num tá me entendendo…?

– Não, não é isso… É que ainda estou…

– Cara, ligado! Fica ligado!

– …

– Aqui na área, quem cochila, dorme mais cedo!

– …?

– E quem dorme mais cedo, nem sempre acorda.

– …?!?

– Por que tu tá aqui? Qual foi o bagulho?

– Ah, sim, por que estou aqui… Bem, a questão é que…

– Cara, ôtra coisa: entra logo no esquema que aqui num temo tempo pra lero-lero… Que papo é esse de “a questão é…” Diz logo qual foi o lance, que eu tenho de fechar um esquema.

– Ah, sim, sim… Entendi… Acho que entendi… O que aconteceu é que eu fui à festa de aniversário de um ano de meu neto, e durante a festa fizemos um brinde para comemorar… Daí, depois de tomar a taça de champanha, peguei o carro com minha esposa para voltar para casa, QUE FICAVA A 2 KM DA CASA DE MEU FILHO e, no caminho, fui parado por uma blitz da lei seca, achando que a idéia de tolerância zero seria só para quem estivesse realmente bêbado; acabei aceitando fazer o teste do bafômetro e…

– Lei seca? Champanha…? Que champanha?

– Ahnnn… Acho que era…

– Ah, pó pará! Lei seca, champanha… Que champanha que nada… Era sidra…

– É… Também acho… Acho que era…

– Má tu é muito otário! Lei seca… E aí, qual foi o pacote?

– Ahnnn… Pacote…?

– É, cara: quantos anos?

– Ah… Bem… 30 anos.

– 30 anos? Por uma sidra? Má tu é muito zé mané…

– Bom, teve também um filé ao molho madeira…

– …

– E uns bombons de licor que eram uma delícia…

– …

– Sério – eram muito bons…

– Bom, vamo direto pro assunto: tenho um lance que te diz respeito, e que vai ser muito importante, se tu quisé se dá bem por aqui – e quem sabe, quando sair…

– Lance…? Que lance…?

– Sobre bagulho…

– Bagulho…?

– É… E o bagulho é lôco…

– …

– E então, tá dentro…?

– …

– Se num tá dentro, tá fora… E depois que tá fora, não tem como entrá…

– …

– E aí?

– Não sei se consigo…

– Nosso pessoal tá ligado.

– …

– Tu vai tê todo o “treinamento”.

– Mas o que é que eu vou ganhar com isso?

– Vai ser muito bom pra tua saúde… Tu vai consegui saí vivo daqui…

– …

– E também tu nunca mais vai bebê sidra como champanha – tu vai bebê champanha como sidra!

– …

– E aí?

– Bem…

– Taí! Fui com tua cara! Tu parece sê um cara prático!

– …

– Teu nome.

– José… José Manuel.

– Cara… Teu pai já tinha traçado teu destino no cartório!

– …

– Vamo lá, então… Negócio é o seguinte: na tua primera visita, tu tem de falá que…

– Ahn, desculpe…

– Qui foi?

– É que eu já lhe disse meu nome, mas ainda não sei o seu.

– Fernandinho.

– Seu nome é Fernandinho?

– Fernandinho é carinho dos parsa… Meu nome é Fernando… Mas pode me chamar de Beira-mar…

– …

Por que será que na maioria das vezes a resolução de um problema da área pública acaba sempre caindo na privada…?

***

“Construir fábricas é facil, fazer hospitais e escolas é possível, mas formar uma nação de homens é tarefa longa e árdua.” (Gamal Abdel Nasser)