UM DIA AINDA PERCO A CABEÇA POR VOCÊ

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

– Seu bobo…

– …

– Um beijo… Tchau…

– … 

Romeu nunca usava um “tchau”, “um beijo”, “amor” ou qualquer outra expressão que usualmente os namorados trocam quando ao final de uma ligação.

Era sempre o “um dia ainda perco a cabeça por você”.

Que já tinha virado uma espécie de código entre os dois.

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

Quando Juliana ouvia isso, já sabia que ele estava desligando.

Sempre do mesmo jeito.

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

No início ela até achou meio estranho.

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

Meio que diferente.

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

Mas nunca nenhum namorado tinha sido tão insistente em uma expressão.

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

E acabou se acostumando.

Ainda mais pelo fato de ela insistir com ele em manter seu namoro em segredo perante os pais.

Tinha muito receio sobre como eles reagiriam quando soubessem que ela estava mantendo um relacionamento com um dos funcionários da segurança interna da empresa do próprio pai.

E seu receio não era gratuito.

Havia passado sua vida inteira ouvindo dos pais conselhos e mais conselhos sobre o oportunismo das pessoas.

De como algumas seriam capazes dos mais sórdidos subterfúgios para manipular o sentimento de outra pessoa.

Sempre em troca da possibilidade de algum salto em sua perspectiva de vida.

Mas ela sempre encarou todos esses conselhos com reservas.

No fundo, achava que eram frutos de uma visão pragmática, e até certo ponto simplista, de seu pai.

Homem forjado pelas agruras da vida, sem sensibilidade no amor.

Nascido pobre, filho de pedreiro, conseguiu galgar altos degraus na esfera empresarial.

À custa de muita dedicação e esforço, fundou sua própria empresa.

Uma empresa voltada para a prestação de serviços na área de vigilância.

Ela até entendia que alguém que tinha passado até fome na vida fosse um pouco conservador.

Mas nunca concordou com o raciocínio simplista de que “quem faz qualquer coisa na vida para viver, vai fazer qualquer coisa para sair dessa vida”.

Era uma frase que seu pai repetia à exaustão, rotineiramente – ela cresceu ouvindo isso dele.

– Ai, já são seis e meia!

Tinha um encontro com o namorado às sete, mas ainda não tinha nem tomado banho. Normalmente ela saía para se encontrar com o Romeu sem deixar isso claro para os pais. Costumava dizer que ia ao cinema com a Elizabete, grande amiga e filha de um casal muito íntimo dos pais.

A Elizabete assumia o papel:

– Hoje, às sete? Tudo bem.

Quando o seu Pedro perguntava para a Elizabete como tinha sido o filme ela, de bate pronto, não se fazia de rogada:

– Foi ótimo! Exatamente como as referências dos críticos – a cena mais forte foi a tentativa de despistar a perseguição no…

No ato, seu Pedro retrucava:

– Bom, bom…

Juliana tinha absoluta confiança em Elizabete.

Pensava que podia contar com ela para o que fosse e o que viesse.

E se seu pai, seu Pedro, forçasse a barra, a Elizabete teria o jogo de cintura necessário para acobertar o esquema…

E Juliana tinha um grande apreço por Elizabete por um outro motivo.

Elizabete nunca demonstrou qualquer sinal de inveja.

Seu Pedro e seu Jorge, pai de Elizabete, foram amigos de infância.

Diferentemente de seu Pedro, seu Jorge não obteve tanto sucesso na vida – pelo menos do ponto de vista financeiro, econômico… Ou pessoal; seu Jorge era aposentado, por invalidez.

Por conta de um tiro numa tentativa de assalto.

– Ih, meu DEUS, perdi a hora…

Juliana correu, tomou um banho rápido, vestiu-se mais rápido ainda com as primeiras roupas que encontrou e saiu.

Sem dar satisfações a ninguém.

Nem precisava; justamente naquele dia, seus pais tinham saído para um evento, um jantar no consulado da França em comemoração ao aniversário da revolução francesa – a chamada “Queda da Bastilha”.

Juliana foi ao encontro de Romeu – de táxi.

Rumo ao local combinado – como de costume.

Chegou atrasada.

Romeu não estava lá.

– Vai ver que ele também se atrasou.

Esperou…

– Talvez tenha ocorrido algum imprevisto.

Continuou esperando…

– Vou ligar para ele.

Pegou o celular…

– “O número discado encontra-se temporariamente fora de serviço.”

Foi a mensagem que ouviu.

Esperou mais um pouco.

E mais um pouco…

E de pouco em pouco, deu-se conta:

– Nossa… Nove horas…

Tentou mais uma vez pelo celular:

– “O número discado encontra-se temporariamente fora de serviço.”

Duas horas de atraso? Isso nunca tinha acontecido.

Ao ver um táxi passando, acenou.

– Vou para casa; amanhã vejo o que aconteceu…

Chegou em casa e, ao ver que seus pais ainda não haviam chegado, resolveu ir direto para a cama.

Deitou-se e mesmo sentindo uma certa angústia pela falta de notícias de Romeu, foi vencida pelo cansaço da espera…

Adormeceu...

No dia seguinte, ao ser acordada pela mãe, foi direta:

– Alguém me ligou?

– Amor… São sete da manhã… Qual foi o sonho…?

– Ahnnn… Deixa pra lá…

Pegou o celular e ligou para Romeu:

– O número discado encontra-se temporariamente fora de serviço.

E agora, pensou ela?

Não conseguia contato com ele.

E se seu Pedro resolvesse mais uma vez indagar Elizabete sobre o “cinema” da noite anterior?

Ela não sabia a que horas seus pais tinham chegado.

Por via das dúvidas, melhor ligar para a Elizabete.

– Bete? Ju!

– Oi, Ju, amor… Tudo bem?

– … Amor… Você falou com meu pai hoje?

– Hoje…? Hoje não…

– Ahnnn… E ontem?

– Hummm… Ontem sim…

– E então?

– Normal… O mesmo papo de sempre…

– Bete, preciso falar com você urgentemente. O Romeu não apareceu ontem, tentei diversas vezes falar com ele pelo celular, mas nada… Não tenho o endereço dele e nenhum outro telefone dele ou de algum amigo dele…

– Calma, Ju; vai ver que houve algum imprevisto…

– Bete querida, preciso falar com você pessoalmente.

– …

– De preferência hoje… Hoje não, agora!

– Hummm…

– Bete…?

– Ju, tenho ótimas notícias!

– …?

– Consegui aquela bolsa de estudos patrocinada nos Estados Unidos!

– Sério… Legal… Se a gente se encontrar daqui a pouco, você pode me dar detalhes sobre isso…

– Aí é que está o problema…

– Problema…?

– Tenho vôo marcado para amanhã, para os Estados Unidos…

– Amanhã…? Para os Estados Unidos…? Assim…? Sem mais nem menos…?

– É… Foi tudo muito de repente… Mas você sabe… Essas oportunidades não podem desperdiçadas…

– …

– Querida… Desculpe… Mas não estou com cabeça agora… Vou passar o dia de hoje só na base de arrumação de malas e providenciando o que for possível para deixar a vida em ordem até minha volta

– E quando você volta?

– Bem, se tudo ocorrer dentro dos conformes, não devo passar mais do que dezoito meses fora do Brasil

– Dezoito meses…?!?

– É… Mas… Querida, desculpe, tenho que dar atenção para meu pai e minha mãe antes de viajar, você sabe… Você está muito mais acostumada do que eu aos rituais pré-viagens internacionais… Um beijo… Tchau amiga

– …

Dois dias se passaram.

E muitas tentativas de contato com Romeu por celular.

Sem nenhum sucesso.

E eis que, no dia seguinte, ela acorda meio sonsa.

Com um eco em sua cabeça:

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

Chateada…

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

– Um dia ainda perco a cabeça por você…

Resolveu então que já era hora de tentar organizar o pensamento

E estabelecer algum planejamento…

Liga o tablet, que vai direto para a página inicial – um site de notícias, que trazia como manchete:

– Corpo de homem sem cabeça é encontrado boiando no Tietê: polícia investiga conteúdo do celular encontrado junto ao corpo.

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“Nós inventamos o que amamos e o que tememos.” (John Irving)