TUDO JÁ FOI DITO UMA VEZ, MAS

Comunicação:

– Tudo já foi dito uma vez!

Mas, como ninguém escuta…

A certa altura da aula, uma aluna levanta o braço:

Sim?

– Professor, posso fazer uma pergunta pessoal?

Pergunta pessoal? Hummm… Geralmente, perguntas pessoais podem ser complicadas, pois corre-se o risco de serem constrangedoras.

– …

Mas também, didaticamente, só é possível saber disso depois de ouvir sua pergunta. Então, qual é a pergunta?

– Bem, o senhor e a professora Michele são casados?

Sim. Somos casados.

Uma semana depois, a mesma aluna volta a levantar o braço durante a mesma disciplina:

Sim?

– Bem… Como nosso professor de “Ética”, qual sua opinião sobre a “mentira”?

Questão profunda essa a sua – de maneira geral, pode-se dizer que mentir é contra os padrões morais de muitas pessoas e é tido como um pecado em muitas religiões. Do meu ponto de vista, há que se avaliar quando uma mentira pode ser um recurso permissível – no sentido de que possa contribuir para minimizar uma situação de conflito.

– Então foi por isso que o senhor mentiu para mim?

Eu menti para você?

– Mentiu sim, e não só para mim como para toda a turma da sala.

Quando foi isso?

– Semana passada eu perguntei se o senhor e a professora Michele eram casados; e foi tacitamente dito pelo senhor que sim, eram casados!

Sim, eu me lembro de ter dito isso: eu e a professora Michele somos realmente casados!

– Ah, é?!? Pois eu conversei com o professor Felipe e o que ele me disse é que ele é casado com a professora Michele.

Exato! As respostas de ambos estão corretas!

– Corretas?

Como foi dito por mim, nós somos casados.

– ?

A professora Michele é casada com o professor Felipe.

– ?

Eu sou casado com a professora Mariana.

– ?

E o que você perguntou foi se “eu e a professora Michele éramos casados”.

– ?

– Você não perguntou se éramos casados “um com o outro”!

– …

***

“Tudo já foi dito uma vez mas, como ninguém escuta, é preciso dizer de novo.” (André Gide)