PEQUENO MINI MANUAL SINTÉTICO: IRONIA

Ironia faz parte de uma das mais áridas áreas de estudo da comunicação humana.

Que é aquela em que se trata da lingüística – ou, de maneira simplória, aquela que estuda o que as palavras quando faladas tiveram por objetivo transmitir ao ouvinte dentro do contexto em que foram ditas.

Essa aridez decorre do simples fato de ser invariavelmente quase impossível reconstituir todos os elementos históricos representativos do cenário em que ocorreram.

Não se trata só de uma reconstituição física, e portanto concreta – pois estão aí as telenovelas para demonstrar que essa é uma das facetas mais simples.

Trata-se isso sim (e é essa a maior dificuldade) de uma reconstituição do ambiente psicológico, e portanto abstrato, de um determinado contexto.

Pois tudo o que é abstrato não é corpóreo, não é palpável, não é visível aos olhos.

E, conseqüentemente, torna-se subjetivo.

E ao se tornar subjetivo, abre a possibilidade para as mais diversas interpretações de quem ouve…

Num diálogo qualquer, do ponto de vista científico, como afinal determinar quais são as emoções das pessoas envolvidas?

Seus sentimentos?

Suas angústias?

E como, efetivamente, isso influencia no sentido daquilo que ambas falam?

Não há nada mais subjetivo do que uma ironia.

Uma ironia representa o suprassumo do embate intelectual:

– Entre quem fala e quem ouve.

E por isso nem sempre é produtiva.

Uma ironia, para ser bem feita, deve sempre levar em consideração o ponto de vista da pessoa que a ouve – e que nem sempre está prestando atenção em detalhes.

Pois ironia é isso:

– Atenção nos detalhes.

E os detalhes representam por si só a maior e melhor fonte de uma “boa” ironia:

1 – Quando seu chefe diz: “Você, tão eficiente, não terminou aquele relatório ainda até agora?” – ele pode estar querendo dizer: “Meu, cê tá ferrado se eu tiver de trabalhar no fim de semana para cobrir tua ineficiência!”

2 – Quando sua namorada diz: “Nossa, meu querido! Não me lembro de quando eu te achava muito elegante ter visto você vestindo essa sua camisa!” – ela pode estar querendo dizer: “Pombas, Mané, vai sair comigo como se fosse pedreiro indo trabalhar em alguma obra?”

3 – Quando sua esposa diz: “Ai querido, nem você vai acreditar o quanto economizei hoje durante minhas compras no shopping!” – ela pode estar querendo dizer: “Meu, paga essa conta senão você vai se arrepender pelo resto de tua vida a próxima vez que eu for fazer compras no shopping!”

4 – Quando seu filho pergunta: “Papai querido, por acaso eu sou adotado?” – ele pode estar querendo dizer: “Meu, que droga de presentes são esses que você vive me dando? Vê se te enxerga, cara!”

5 – Quando sua empregada pergunta: “Seu Manoel, sinto-me bem trabalhando aqui, mesmo que exaustivamente dia após dia, mas trabalho não é tudo na vida de uma pessoa, por isso gostaria que o senhor me dispensasse de trabalhar no próximo sábado, porque minha sobrinha vai casar, tudo bem?” – ela pode estar querendo dizer: “Seu Mané, tenho uma baladona no sábado e nem que a vaca tussa eu deixo de ir – se não gostou, trate de ir aprendendo como se lava louças e se esfrega o chão, pois o “bolsa-família” já me garantiu… De montão!”

Afinal, no dia a dia da vida, em que se basear para interagir socialmente:

– No que é falado; ou,

– No que é dito?

Na dúvida, não hesite.

Pois não há nada pior na vida de alguém do que fazer uma ironia e constatar que as pessoas que a ouviram não entenderam que o que foi dito é justamente o que não foi falado…

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“Idiota mesmo é o sujeito que, ouvindo uma história com duplo sentido, não entende nenhum dos dois.” (Millôr Fernandes)

 

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