CETICISMO PROFISSIONAL

Ceticismo profissional:

– Não basta ouvir a resposta – é preciso entender a pergunta.

Ceticismo profissional não se resume apenas ao que ocorre dentro de uma empresa, mas também aos possíveis, e às vezes inevitáveis, desdobramentos de sua interação com clientes, fornecedores, bancos, prestadores de serviços etc.

Uma das mairores dificuldades na prática do ceticismo profissional está no fato de muitos dos participantes dessa rede de relacionamentos não ter sido suficientemente preparada para responder de forma efetiva e condizente à principal demanda da sociedade moderna: a necessidade de se confirmar, através de evidências independentes, a afirmação de alguém. 

Ou, em outras palavras, a conviver com o exercício do ceticismo profissional. 

Num primeiro plano, ser cético não significa não acreditar em nada – significa apenas esperar para acreditar em algo até que o que tenha sido dito seja confirmado por fatos, ou fontes que de alguma maneira possam ser consideradas como não tendo qualquer interesse direto no que foi dito. 

Mais ou menos aquilo que acontece quando alguém no caixa de um supermercado, ao apresentar seu cartão de crédito para pagamento das compras efetuadas, ouve a pergunta: 

– Pode apresentar sua carteira de identidade? 

Não é que o caixa esteja duvidando de sua honestidade – na realidade, na maioria das vezes, ele nem sequer olhou para sua cara – trata-se apenas de o caixa cumprir um procedimento estabelecido pela administração para validação de uma transação básica entre “comprador e vendedor”. 

O que o caixa está fazendo é simplesmente praticar o ceticismo profissional. 

Pois faz parte de suas atribuições, dentre outras, não acreditar que, simplesmente porque o cliente possui um cartão de crédito, ele seja o titular do cartão apresentado. 

No fundo, ele (o caixa) não está nem aí com você… 

Ceticismo profissional não significa não acreditar em nada – mas sim só acreditar quando os fatos demonstrem que a uma contra-argumentação, um ato pode ser confirmado.

Não se trata de uma fórmula mágica: trata-se apenas do cumprimento de um simples procedimento de controle interno empresarial. 

Aplicável a quaisquer empresas, ou organizações, independentemente de seu objeto social.

Só que internamente, no convívio diário da rotina operacional de uma empresa, não é aplicável se pedir a “carteira de identidade” de alguém a cada afirmação feita por ele: No mínimo, um procedimento como esse seria ridículo… Então, o que sobra? 

Ter uma perspicácia suficiente para exercer o ceticismo profissional através de perguntas que tragam respostas condizentes com a necessidade de alguma confirmação. 

Mas, que perguntas? Alguns exemplos (e só como exemplos):

– As demonstrações contábeis serão aprsentadas considerando-se todos os ajustes necessários. 

– Quais são os ajustes necessários?

– …

– O perfil do candidato atende nossas necessidades.

– Quais são nossas necessidades para esse perfil?

– …

– Os produtos serão entregues pelo fornecedor conforme os termos do pedido.

– Quais são os termos do pedido?

– …

– A equipe já está orientada sobre os pontos básicos do projeto.

– Quais são os pontos básicos do projeto?

– …

– As notas fiscais da transação estão de acordo com o especificado no contrato.

– O que está especificado no contrato?

– …

Qualquer pergunta que alguém faça a quem quer que seja sempre gerará expectativas diversas sobre as possíveis respostas que serão apresentadas a esse alguém: independentemente disso, o importante será sempre procurar identificar aquela que de alguma maneira apresente uma mínima evidência de que o fato relatado esteja sendo realizado conforme as regras estabelecidas.

Uma simples exercício de assumir uma atitude que leve a alguma conclusão – ou pelo menos, como diriam os italianos:

– “Se non è vero, è ben trovato…”

***

“Não é que as pessoas incrédulas não acreditam em nada. É apenas que elas não acreditam em tudo.” (Umberto Eco)