MUNDO CORPORATIVO

Mundo corporativo: afinal, o que isso significa?

– Uma rodovia?

– Uma avenida?

– Uma rua?

– Um beco?

Nada disso….

O mundo corporativo representa apenas uma rotatória, onde todos rodam, rodam, rodam…

Girando em círculos, à procura de uma saída…

***

– Chato…

Era o que ele dizia a si próprio, mentalmente…

– Muito chato…

E dizia sem parar…

– Chato… Muito chato…

A ponto de não mais se concentrar…

E de nem saber mais por que ainda estava lá…

O fato é que uma tarefa já deveria ter sido concluída – um maldito relatório que deveria estar na mesa do chefe na segunda-feira, às 8 da manhã…

Do alto do 23º andar do prédio era difícil para ele ter qualquer noção sobre o que ocorria no lado de fora.

O escritório ficava numa avenida movimentada – aliás, muito movimentada, pois representava o principal endereço do mundo corporativo, independentemente do setor de atuação das empresas.

O mundo corporativo do país estava ali! Inclusive o mundo corporativo “alternativo”: bares! Muitos bares! Aos borbotões…

Que quase todos os funcionários e colaboradores desse mundo corporativo frequentavam diariamente, ao final do expediente.

Como uma maneira de compensar o stress causado pela extenuante atividade diária no mundo corporativo – e era isso o que mais o incomodava.

Não ter qualquer referência sobre o que rolava lá embaixo – um autêntico martírio para quem amava a vida noturna…

Já não bastava o fato de ter de se esfalfar numa sexta-feira, depois do expediente normal, sem poder acompanhar o pessoal no tradicional “happy hour”?

Ainda era obrigado a se sentir assim?

Absolutamente isolado de tudo… E de todos…? De seu mais querido ambiente?

– Ahnnn… Onde é que eu estava mesmo…?!?

Ele já tinha perdido sua capacidade de concentração…

Já nem sabia mais o que estava fazendo ali…

– Nossa… 01h00…

Já era sábado…

E ele ainda continuava fazendo o que tinha começado a fazer logo que chegou ao escritório, no início do dia…

Da sexta-feira…

– Não há como se ter concentração neste ambiente… Baias sem qualquer privacidade… Todo mundo falando ao longo do dia, em voz alta… Quem é que consegue ser produtivo num ambiente desses…?

15 segundos de reflexão…

E aí então caiu a ficha…

– Quer saber… Vou tomar um café…

Uma máquina de café em cada um dos 25 andares do prédio…

Obviamente, ele foi à máquina de café do próprio andar…

– Droga… Acabou o pó…

Ele estava muito a fim de um café…

– Subir ou descer…? Descer é mais fácil… Vou pela escada de incêndio até a máquina do 22º…

E…

– Droga! Também não tem pó…

E…

– Bom… Já desci um andar… Desço mais um…

E…

– Droga! Não é possível!! Não tem água!!!

E…

– Vou descer até o 20º andar…

E…

– Droga! Droga!! Droga!!! Agora não tem copo!!! Vou descer mais um andar, e dessa vez, vou levar um copo!

E…

– ARGHHH!!! “MÁQUINA EM MANUTENÇÃO”?!? Chega! Não vou descer mais!

E ele decidiu que não ia mais descer: começou a subir as escadas…

Subindo… Subindo… 01h23…

– Nossa… Que vontade de um café…

O 24º andar era o andar reservado à diretoria…

O 25º, ao presidente…

– Quer saber…? Vou até o 24°… Preciso de um café…

01h32…

Subindo pela escada, ao abrir a porta que separava todos os andares da escada de incêndio…

– Ahnnn… Seu Ariovaldo…

– Oi, Alcides.

– …

– E então… Como é que anda aquele relatório?

– Ahnnn… O senhor se refere a aquele relatório que tenho de apresentar-lhe na segunda-feira…?

– Claro…

– Bem, seu Ariovaldo… O fato é que eu estava trabalhando nele, sem parar…

– Bom.

– Com dedicação absoluta…

– Muito bom.

– Só que ainda não tive chance de concluí-lo da maneira como o senhor gostaria de recebê-lo… É que…

– Alcides.

– Ahnnn… Sim…?

– Tenho de revisar 25 relatórios até a próxima segunda-feira.

– …

– Eu gostaria muito de tomar um café: você acredita que a máquina de café do andar não tem pó, não tem água, e ainda por cima não tem copo?

– Nossa… É mesmo?

– Pois é… E eu gostaria muito de tomar um café….

***

“Ao trabalhar dedicadamente oito horas por dia, você pode chegar a ser um chefe – e passar a ter de trabalhar doze horas por dia.” (Robert Frost)