O QUE SIGNIFICA COLIGAÇÃO ELEITORAL

Coligação eleitoral: só os políticos precisam dela!

Uma das mais “interessantes características” do sistema político-eleitoral brasileiro é a possibilidade de os partidos efetuarem coligações eleitorais para a disputa das eleições, sem praticamente quaisquer restrições de natureza legal.

Como quiserem, ao seu bel prazer… E por conta dessa “interessante característica”, muitas vezes os eleitores são brindados com situações de coligações eleitorais que, à luz da coerência programática, não fariam o menor sentido do ponto de vista “político”.

Mas que (e isso com certeza) fazem sentido do ponto de vista “eleitoral” – ou, em outras palavras, “para ganhar a eleição e chegar ao poder”.

Criam-se então situações inusitadas como as que, num exercício hipotético, seguem:

– No âmbito nacional o partido A faz coligação com o partido B; o partido C assume o papel de oposição;

– Em âmbito estadual o partido A não faz coligação com nenhum partido; o partido B faz coligação com o partido C, formando a oposição;

– No âmbito municipal o partido A faz coligação com o partido C; o partido B assume o papel de oposição;

A pergunta que não quer calar:

– Por que o partido A coliga-se com o B nacionalmente, segue sozinho em âmbito estadual, mas no âmbito municipal coliga-se com C, que justamente representa sua oposição no âmbito nacional?

Desculpe, sei que é muito esperar dos políticos uma explicação que justifique essas situações sob o ponto de vista programático…

Afinal, nada justifica! Mas do ponto de vista dos políticos, a resposta é simples:

– O que importa é ganhar a eleição, independentemente dos programas…

Mas do ponto de vista do eleitor, de que valem essas “coligações eleitorais”?

Como pode um eleitor simpatizante da oposição que faz o partido C ao partido A no âmbito nacional, entender que esse mesmo partido se coligue no âmbito municipal ao… Partido A?

O que mais chama a atenção em tudo isso é que, no exercício acima, utilizamos apenas, para fins hipotéticos, três partidos (A, B e C).

Agora, uma rápida espiada na situação do mundo real – e tente visualizar o que significa a possibilidade de coligações eleitorais para qualquer partido no Brasil.

Relação de Partidos Políticos Registrados no Tribunal Superior Eleitoral (atualizada em 23 de outubro de 2012, às 14h33):

 

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SIGLA

NOME

DEFERIMENTO

1

PMDB

PARTIDO   DO MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO

30.6.1981

15

2

PTB

PARTIDO   TRABALHISTA BRASILEIRO

3.11.1981

14

3

PDT

PARTIDO   DEMOCRÁTICO TRABALHISTA

10.11.1981

12

4

PT  

PARTIDO   DOS TRABALHADORES

11.2.1982

13

5

DEM

DEMOCRATAS

11.9.1986

25

6

PCdoB

PARTIDO   COMUNISTA DO BRASIL

23.6.1988

65

7

PSB

PARTIDO   SOCIALISTA BRASILEIRO

1°.7.1988

40

8

PSDB

PARTIDO   DA SOCIAL DEMOCRACIA BRASILEIRA

24.8.1989

45

9

PTC

PARTIDO   TRABALHISTA CRISTÃO

22.2.1990

36

10

PSC

PARTIDO   SOCIAL CRISTÃO

29.3.1990

20

11

PMN  

PARTIDO   DA MOBILIZAÇÃO NACIONAL

25.10.1990

33

12

PRP

PARTIDO   REPUBLICANO PROGRESSISTA

29.10.1991

44

13

PPS

PARTIDO   POPULAR SOCIALISTA

19.3.1992

23

14

PV

PARTIDO   VERDE

30.9.1993

43

15

PTdoB

PARTIDO   TRABALHISTA DO BRASIL

11.10.1994

70

16

PP

PARTIDO   PROGRESSISTA

16.11.1995

11

17

PSTU

PARTIDO   SOCIALISTA DOS TRABALHADORES UNIFICADO

19.12.1995

16

18

PCB

PARTIDO   COMUNISTA BRASILEIRO

9.5.1996

21

19

PRTB

PARTIDO   RENOVADOR TRABALHISTA BRASILEIRO

28.3.1995

28

20

PHS

PARTIDO   HUMANISTA DA SOLIDARIEDADE

20.3.1997

31

21

PSDC

PARTIDO   SOCIAL DEMOCRATA CRISTÃO

5.8.1997

27

22

PCO

PARTIDO   DA CAUSA OPERÁRIA

30.9.1997

29

23

PTN

PARTIDO   TRABALHISTA NACIONAL

2.10.1997

19

24

PSL

PARTIDO   SOCIAL LIBERAL

2.6.1998

17

25

PRB

PARTIDO   REPUBLICANO BRASILEIRO

25.8.2005

10

26

PSOL

PARTIDO   SOCIALISMO E LIBERDADE

15.9.2005

50

27

PR

PARTIDO   DA REPÚBLICA

19.12.2006

22

28

PSD

PARTIDO   SOCIAL DEMOCRÁTICO

27.9.2011

55

29

PPL

PARTIDO   PÁTRIA LIVRE

4.10.2011

54

30

PEN

PARTIDO   ECOLÓGICO NACIONAL

19.6.2012

51

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos); acesso em 08/01/2013, às 15h20.

É isso mesmo! Você não está tendo uma ilusão de ótica…

Em 23/10/2013 tínhamos, no Brasil, trinta (30) partidos registrados – segundo a legislação!

Imagine as “coligações eleitorais” que afloraram pelos rincões deste Brasil varonil nas eleições que se seguiram – seja na terra, seja no céu, seja no diário oficial…

Como é que um eleitor pode cobrar alguma coerência programática de um político, se muitas vezes nem ao menos ele consegue ter uma visualização minimamente clara sobre quem apóia quem, quem faz oposição a quem…?

Há partidos que só existem por conta de haver essa possibilidade legal de coligações eleitorais (pois seriam inviáveis em qualquer disputa eleitoral) – e é justamente por isso esses partidos vão sempre tentar driblar suas dificuldades de sobrevivência e procurar por coligações eleitorais, não importa se com A, B ou C…

Será sempre uma questão de se “conversar”…

O mais triste, sob o ponto de vista do eleitor, é que depois de 23/10/2012 a situação essa trilha só desandou, e mais partidos foram criados – muitos mais!

O dia em que se eliminar essa possibilidade de coligações eleitorais, no mínimo dois terços desses partidos sumirão no dia seguinte – e muitos políticos vão ter de aprender a conversar com headhunters…

E sabe o melhor?

Ninguém sentirá a falta de nenhum desses partidos!

Façamos uma campanha pelo bem do Brasil: pelo fim das coligações eleitorais! Ficará muito mais barato para o povo – principalmente para saber quem cobrar depois de uma eleição…

***

“A máquina política triunfa porque é uma minoria unida atuando contra uma maioria dividida.” (Will Durant)

 

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