O QUE SIGNIFICA ALTERNATIVA

Alternativa: só existe alguma na vida quando as opções forem as mesmas – tanto na ida quanto na volta.

Ele costumava fazer sempre o mesmo trajeto na volta do trabalho, sem considerar as alternativas…

Caminhando pelas mesmas ruas da cidade: 

– Barão de Itapetininga… 

– Xavier de Toledo…

– Sete de Abril…

– São Luiz…

– Ipiranga…

Mais de onze horas da noite.

Quase todos os bares já fechando…

“Tão cedo?”, pensava ele.

“Esse pessoal não sabe ganhar dinheiro…”

Em direção à Consolação, um bar que lhe parecia a todo vapor:

– Ainda não começaram a limpar as mesas… – pensou.

E arriscou…

Sentou-se na primeira mesa que avistou.

Na calçada.

Mesa redonda.

Três cadeiras ao redor da mesa.

Ele estava sozinho.

Ele e sua pasta de trabalho.

Que, de tão cheia, mais parecia uma mala de viagem…

Três cadeiras eram o suficiente.

Ele não precisava mais do que duas.

Uma para ele – outra para sua pasta.

Sentou-se, pensando que…

– Vai querer o quê?

Um garçom não lhe deu tempo – foi logo perguntando, antes que ele sequer tivesse se ajeitado numa cadeira.

E não tinha nem acomodado sua pasta na cadeira do lado.

Ao lado de sua cadeira.

Cadeiras essas ao redor da mesa.

Maldito garçom!

Um garçom eficiente… Mas maldito!

Ele pediu o cardápio.

O garçom apontou…

O cardápio já estava em cima da mesa!

Diante dele!

Praticamente sob o nariz dele…

Ficou sem jeito – não tinha nem olhado para a mesa.

Muito menos para a cara do garçom…

Mas não se deu por vencido – e foi rápido:

– Tem cerveja?

– Só chope, senhor.

– Qual chope?

Nem ele sabia por que tinha perguntado aquilo.

E tanto não sabia que nem prestou atenção na resposta.

Não faria a menor diferença as alternativas de marca ou tipo de chope do bar.

O que ele queria era beber!

Para espairecer…

Relaxar…

Para liberar toda a carga acumulada de um dia muito difícil…

Muito ingrato…

Muito duro…

– E então, qual chope vai querer? – perguntou o garçom.

– Ahn… Pode ser o primeiro que você falou…

O garçom deu meia volta, e… Foi buscar o chope pedido por ele.

Sem que ele tivesse a mínima chance reavaliar sua opção.

Afinal, qual teria sido dentre as alternativas de chope citadas pelo garçom a que ele havia escolhido?

Ele não fazia a menor idéia…

E sua pasta continuava ainda sobre seu colo…

Desde quando ele se sentou na cadeira.

Numa das três cadeiras.

Que estavam ao redor da mesa.

Uma mesa redonda.

– Por que será que alguns bares tem mesas redondas? – pensou ele; tudo o que é redondo lembra um círculo, uma figura geométrica que passa a idéia de um processo contínuo, sem possibilidade de alternativas, sem começo nem fim…

Ele se levantou, pegou sua pasta e saiu do bar.

Antes mesmo que o garçom lhe trouxesse seu pedido.

Simplesmente levantou-se e foi – seguindo as mesmas alternativas de trajeto:

– Ipiranga…

– São Luiz…

– Sete de Abril…

– Xavier de Toledo…

– Barão de Itapetininga…

Mas com um objetivo claro em mente: retornar ao mesmo bar, a tempo de ainda poder beber gelado o chope que ele pedira ao garçom.

Que lhe apresentou diversas alternativas que ele não ouviu, ou não prestou atenção, mas disposto a degustá-las!

Como se fosse possível ainda sentir o prazer do sabor daquele chope gelado que o garçom tinha deixado em sua mesa

***

“Nós somos as escolhas que fizemos.” (Meryl Streep)

 

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