ADMINISTRAÇÃO DO TEMPO

Administração do tempo:

– Quando o futuro vira passado, fica fácil ver o que tinha de ter sido feito…

Ele sabia que o dia seguinte seria duro, e por isso tinha decidido sair do escritório mais cedo que o usual, para poder descansar e retomar com força total; quando chegou em casa, a esposa e as crianças já estavam dormindo.

Será que a esposa entenderia a situação? Afinal, pensava ele, não é que houvesse indiferença em suas atitudes; pelo contrário, havia é amor – em prover os recursos necessários ao sustento da família… Amor verdadeiro!

“Melhor deixar para pensar nisso amanhã”, decidiu ao deitar-se: dormiu quatro horas naquela noite…

E chegou bem cedo ao escritório no dia seguinte, por volta das seis da manhã!

– Nossa, seis da manhã? Hoje o dia vai ser produtivo!

Muito confiante em que poderia dar conta de todos seus vários compromissos ao longo daquela árdua jornada.

Estava um pouco sonolento, é verdade – mas só um pouco.

E as horas foram passando… O dia foi passando… O tempo foi passando…

A certa altura, ele olhou para o relógio e quase teve um surto! Sentiu-se sufocado! Uma sensação que havia muito não sentia – desde quando era trainee.

Tinha percebido que teria menos tempo para trabalhar dali para frente do que já tinha trabalhado até então.

Sem se dar conta, tinha perdido a manhã inteira em atividades acessórias, que não tinham acrescentado qualquer resultado prático no cumprimento de sua agenda:

– E-mails;

– Telefonemas;

– Twitte;

– Reuniões;

– Facebook;

– Cafés;

– Whatsapp…

Tinha chegado tão confiante, e talvez por isso tivesse se desconcentrado; mas entrou em transe quando percebeu: teria ainda muito mais a fazer do que aquilo que já havia feito…

Diante de tal constatação, começou a se sentir como uma criança que recebeu como presente de aniversário uma caixa de bombons…

Os primeiros bombons, a criança comeu de maneira displicente, sem degustar, sem sorver seu recheio, sem sequer comê-los por inteiro, mas…

Ao perceber que estavam acabando, passa a comer com delicadeza e concentração cada bombom – e também a lamber a embalagem que envolve cada um desses restantes…

Mas, àquela altura, já não tinha mais jeito:

– O que fazer com os compromissos então agendados?

– O que fazer para tentar recuperar o tempo perdido?

E tomou as decisões que considerou imprescindíveis para o cumprimento das atividades agendadas para aquele dia, mas até então pendentes:

1. Nada de lidar com mediocridades: iria abreviar quaisquer reuniões onde desfilassem pessoas com egos inflamados, invejosos tentando destruir quem eles admiram – mas que na realidade cobiçavam seus lugares, por não terem os mesmos talento e sorte…

2. Nada de conversas intermináveis, para discutir condutas discutíveis de funcionários que nem faziam parte de sua área de atuação…

3. Nada de tentar administrar melindres de pessoas, independentemente de sua idade física, pois muitos, psicologicamente, poderiam ser simplesmente imaturos…

4. Nada de fazer acareação entre desafetas que brigassem para ser secretária do maioral…

5. Nada de atender pessoas que não debatessem conteúdos, apenas rótulos – pois seu tempo tinha se tornado escasso para debater rótulos; iria ater-se apenas a discussões de essência…

Àquela altura, sem muitos bombons na caixa, ele queria ter a seu lado:

1. Profissionais que, independentemente de seu ego, assumissem seus tropeços;

2. Profissionais que não se iludissem com seus triunfos, que não se considerassem promovidos antes da “carta de comunicação do RH”;

3. Profissionais que se dedicassem independentemente da possibilidade de serem demitidos, mesmo quando não dessem motivos para isso…

Pelo restante do dia, ele atenderia somente profissionais.

“Nem sempre o essencial faz o trabalho valer à pena”, costumava dizer ele a seus colegas e familiares – mas para ele, naquele dia, bastava o essencial.

Administração do tempo não tem nada a ver com calor… Com frio… Com chuva… Com sol… Não tem nada a ver com querer controlar o clima externo.

Administração do tempo tem a ver só com o clima interno: aquele que faz a corrente sangüínea fluir e fazer o próprio coração bater, para se ter a motivação de fazer hoje o que deveria ter sido feito ontem – quando você pensou que podia ser deixado para amanhã…

***

“Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.” (Marcel Proust)